As Mulheres e as Águas: coragem, tradição e resistência no feminino das marés.
- ZAYA atelier
- 19 de jul.
- 4 min de leitura
Em muitas margens do Brasil, enquanto o sol ainda se esconde e o silêncio da manhã toca a pele como a brisa salgada, há mulheres que partem para as águas. Elas não vestem uniformes modernos, não aparecem em capas de revistas, mas carregam nas mãos calejadas uma sabedoria ancestral que atravessa gerações. São mulheres pescadoras, marisqueiras, catadoras de caranguejo, mulheres das águas.

O documentário As Mulheres e as Águas que está disponível no Youtube, (assista através desse link : https://youtu.be/P62sFliw7K8?si=bnDHpDL_XkLQcZ6R ) me tocou profundamente, não apenas por mostrar os desafios enfrentados por essas mulheres, mas por revelar sua força silenciosa, sua delicadeza resistente e a maneira como suas histórias ecoam muitas das questões que também me atravessam como artista, criadora e mulher que escolheu viver próxima à natureza.
O feminino das águas: entre força e fluidez
A água sempre foi símbolo do feminino: ela contorna, envolve, adapta, mas também é capaz de carregar barcos, destruir muros e transformar paisagens. O trabalho das mulheres pescadoras carrega essa mesma dualidade : é delicado e forte, silencioso e potente, cotidiano e profundamente simbólico.
Elas não enfrentam apenas o mar ou os rios. Enfrentam a invisibilidade, o cansaço, o machismo, o peso do sustento da família e, mesmo assim, seguem. Ao lado das canoas, entre redes, mariscos e peixes, essas mulheres desenvolvem uma relação íntima com os ciclos naturais. Elas sabem que a maré não se força, que o tempo da colheita é o tempo da espera, e que o corpo precisa ouvir o ritmo da natureza.
Ser mulher nas águas é um ato de resistência. É entender o tempo das luas, sentir a água nos pés como um sinal do que virá, cuidar da terra e do mar com o mesmo zelo com que se cuida de um filho.

Ao assistir ao documentário senti algo profundo: essas mulheres vivem aquilo que, na arte, chamamos de intuição e escuta. Elas criam estratégias, rituais como canções, soluções, não só para sobreviver, mas para sustentar formas de vida mais conectadas, humanas e generosas.
Invisibilidades: o trabalho que não é visto
Embora sejam protagonistas de seus territórios, as mulheres pescadoras raramente são reconhecidas como tais. Muitas vezes, são vistas apenas como “ajudantes” dos maridos ou pais, mesmo quando são elas que acordam antes do sol, que pescam, limpam, vendem e sustentam a casa. A pesca, em muitas comunidades, é socialmente lida como um ofício masculino. O feminino, mesmo presente em quase todas as etapas do processo, permanece invisível.

Mulheres Pescadoras
Elas enfrentam a falta de políticas públicas específicas, não têm garantias trabalhistas, assistência em saúde ou direitos assegurados como profissionais da pesca. Além disso, enfrentam questões ainda mais profundas: o preconceito, o silenciamento e a constante luta por reconhecimento em suas próprias comunidades.
Mas apesar da invisibilidade institucional, a presença dessas mulheres é visceral. Elas fazem o trabalho acontecer. São o elo entre a natureza e o alimento na mesa, entre o saber tradicional e a resistência cotidiana.
Saberes ancestrais e heranças femininas
Em cada gesto de uma mulher das águas, existe uma memória. O jeito de caminhar no mangue, o modo de puxar a rede, o cuidado ao abrir um molusco, o silêncio atento diante da maré, tudo isso é aprendizado transmitido por mães, avós, vizinhas, tias. É uma pedagogia silenciosa, ancestral, que forma gerações de mulheres sábias.
Essa herança me toca diretamente. Quando pinto ou desenho, sinto que também estou acessando um conhecimento antigo. São técnicas que exigem paciência, escuta, humildade e amor pelo processo. As mãos dessas mulheres me lembram as mãos que criam arte: firmes, repetitivas, sagradas.
Elas não se expressam com palavras difíceis, mas com práticas profundas. O modo como escolhem quando e onde pescar é também um gesto de cuidado com o ecossistema. Seus saberes não estão nos livros, mas na pele, no tempo e na maré.
Mulheres como guardiãs dos ecossistemas
Enquanto políticas de pesca industrial exploram os mares de forma predatória, muitas dessas mulheres trabalham com práticas sustentáveis há décadas ou séculos. Elas sabem respeitar o ciclo dos peixes, entendem quando o mangue precisa de descanso, reconhecem os sinais que a natureza dá.
São guardiãs silenciosas dos rios, e das baías. Mesmo sem reconhecimento formal, muitas atuam como verdadeiras protetoras ambientais, denunciando práticas ilegais, lutando contra a poluição, defendendo seus territórios da especulação imobiliária e da degradação.
Essas mulheres nos mostram que cuidar da natureza não é um ato distante ou teórico: é uma prática diária, feita com os pés descalços na lama, com redes remendadas à mão, com olhos que veem o invisível.
O que podemos aprender com elas?
O trabalho das mulheres pescadoras nos ensina sobre paciência, escuta e presença. Nos lembra que os ciclos da vida não obedecem à pressa das cidades. Que há força no cuidado e resistência no silêncio.
Como artista, sinto que há uma ponte invisível entre o universo dessas mulheres e o meu processo criativo. Assim como elas leem as marés, eu aprendo a ler os silêncios do papel. Assim como elas respeitam os tempos da pesca, eu aprendo a respeitar o tempo do traço.
Elas me inspiram porque não romantizam o trabalho, mas o vivem com inteireza. Ensinam que, para criar algo verdadeiro, é preciso estar inteira : no corpo, na escuta, no gesto.
As mulheres das águas não aparecem nas estatísticas, mas moldam paisagens inteiras com seu trabalho invisível. São elas que alimentam comunidades, preservam territórios, ensinam práticas sustentáveis e mantêm viva uma sabedoria ancestral.

Que seus nomes, gestos e histórias sejam lembrados, reconhecidos e celebrados. Que inspirem outras mulheres, pescadoras de sonhos, de palavras, de arte, a continuar navegando com coragem, mesmo quando o mar estiver revolto.
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